sábado, 2 de junho de 2012

yolk life

tenho um livro que faz referência a uma peça de teatro - Yolk Life - escrita por Oddur Bjorsnsson, que tenho andado à procura.... os personagens são fetos gémeos de oito meses. Um dos gémeos é racionalista que aceita o ambiente que o acolhe como o único que ele pode alcançar. O outro gémeo é mais complexo, parece ser fraco e dependente mas tem uma intuição que requer expansão. Acaba por ter uma sensação estranha a respeito de uma outra forma de vida para além da fetal...

transcrevo-vos a última fala da peça, do feto 2:

"você não poderia imaginar um mundo grande, um mundo cem mil triliões de vezes maior do que nós, onde a luz não fosse tão escura e a escuridão não fosse tão clara, onde houvesse seres iguais a nós e diferentes de nós, onde houvesse pianos e cachorros, escritores e cadeiras para nos sentarmos, catálogos de encomenda e homens como os das histórias de fantasmas e....como se chamam mesmo?...mulheres que se multiplicam! E mais espaço para a cabeça, para que pudessemos ficar em pé. Beethoven, para que todos os pianos pudessem ser tocados. Penicos e fotografos de óculos. E todo o tipo de coisas possíveis. E também todo tipo de coisas impossíveis. Hein? Você pode imaginar? Não pode realmente imaginar?"

o feto 1 dá uma resposta rápida: "Não."

a peça termina na escuridão, em silêncio total.

ficamos nós com este dilema.... supondo que o nascimento visto do interior do útero é sentido como morte será que a morte, vista do lado de fora do corpo, será um nascimento?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

sábado, 12 de maio de 2012

...


intervalos...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

um dia de chuva

foto de Rui palha

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

Alberto Caeiro - Poemas Inconjuntos

terça-feira, 24 de abril de 2012

o homem que está apaixonado encontra um búzio na margem. quando o leva ao ouvido, não ouve o mar, nem o vento, nem os anjos, mas só a sua própria voz cantando: amo-te. nunca ouvira nada tão belo.

na outra margem, todos os homens dormem. alguém caminha lentamente ao longo da praia, leva-os um a um ao ouvido, escuta. nalguns desses búzios humanos ouve cães a ladrar, noutros tigres rugir na imensidão ou então martelos a ressoar, e noutros ainda crescer o crescer das máquinas. mas num deles ouve ecoar o grito de um peixe. é o som que faz o homem que está apaixonado quando alguém o leva ao ouvido.

se os planetas pudessem amar, deixariam a sua órbita e provocariam o caos. a salvação do mundo deve-se ao facto de o amor ser impossível. o homem que está apaixonado adivinha, também ele sabe, que o amor é gémeo da morte. mas isso não o impede, a ele que é prisioneiro do seu destino, de entrar de rompante na cela do seu vizinho gritando de alegria: sou livre!

stig dagerman   (publicação póstuma 1955)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Gente Da Minha Terra



(para ti, Luisa)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

as fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner