quinta-feira, 15 de julho de 2010

vens?



- Vens-me buscar?

- Vou. Mas onde?

- Tanto faz, desde que me venhas buscar.

Pedro Paixão, “Histórias verdadeiras”

domingo, 11 de julho de 2010



Que memórias acordam em mim? O som que vem…

Movimento? Ficar suspenso?
Um arrepio de dor….Partir? Ficar?

Que som acorda em mim? As memórias que vêm…

tão simples


sábado, 10 de julho de 2010

Quíron


Quíron foi descoberto em 1977 pelo astrónomo Charles Kowal e classificado inicialmente como asteróide. Mais tarde e por estar envolto numa névoa de gás foi classificado como cometa. Situado entre as órbitas de Saturno e Urano leva cerca de 50 anos para fazer a sua órbita ao redor do sol. A sua órbita elíptica faz com que ele tenha uma duração variável de tempo em cada signo. Quíron permanece em Balança não mais que 18 meses, enquanto em Áries permanece 8 anos.

Para melhor compreendermos a natureza de um corpo celeste é fundamental que observemos os principais acontecimentos ocorridos no mundo na época da sua descoberta. A descoberta de Quíron correspondeu a um grande desenvolvimento na esfera das terapias alternativas e da Medicina natural e holística. A necessidade de preservar a vida passou a fazer parte da consciência humana.

Na Engenharia Genética ocorreram avanços extraordinários exatamente por volta da descoberta de Quíron. Em 1977 aconteceu a primeira clonagem de um gene humano, e, em 1978, nasceu Louise Brown, o primeiro bebê de proveta. Também neste ano foi determinado o genoma do vírus SV40, o primeiro passo para a descoberta do genoma humano.

A sua exploração astrológica está apenas a começar. Quíron, cujo símbolo lembra uma chave tem sido alvo de muita curiosidade, tanto na Astrologia, como na Astronomia. Por isto e desde então, estão sendo realizadas pesquisas em busca do significado astrológico e psicológico de Quíron e das suas possíveis influências, tanto em mapas astrais individuais como no âmbito coletivo. Para isso, recorreram ao simbolismo do mito, da mesma forma como aconteceu com relação a Urano, Netuno e Plutão, à medida que estes foram sendo descobertos.

Quiron representa O Curador O Agressor O Ferido

A independência filosófica A compaixão diante do sofrimento

O processo de aprendizagem para chegarmos a confiar no Mestre ou no Guia Interno

Na mitologia Quíron aparece como filho de Cronos e da ninfa Filira. Nascido metade Homem metade Cavalo Quíron é abandonado pela mãe. Apolo encontra-o, adopta-o e, como mentor, transmite-lhe muitos ensinamentos.

Quíron tornou-se sábio, profeta, médico, professor e músico. Os reis e os deuses confiavam-lhe os filhos para que os educasse. Foi também mentor de numerosos heróis famosos da Grécia, incluindo Aquiles, Hércules e Asclépio. Quíron ensinou-lhes tudo, desde montar a cavalo, atirar com arco, caçar, as artes da guerra e da medicina (todas elas destinadas à sobrevivência), até ética, música, ritos religiosos e os princípios das ciências naturais.

Numa briga entre Hércules e os Centauros uma das flechas de Hércules contra os Centauros, fere Quíron na sua coxa, causando-lhe uma ferida incurável que o faz sofrer para resto da vida. Ele que cura os outros não tem o poder de se curar a si próprio.

Quiron, no nosso Tema Natal, mostra-nos as coisas que temos a capacidade de fazer pelos outros, mas que não fazemos por nós próprios. Qualidades que outros facilmente percebem em nós, mas que não podemos ver. Muitas vezes são coisas de que necessitamos para nosso próprio crescimento e cura, mas que nos escapam.

O mito de Quiron está configurado como um conjunto de três figuras que se demonstram através do posicionamento do Planeta Quíron, no Tema Natal, na área de vida indicada pela casa e signo onde se encontra: São as figuras do ferido/vítima, agressor/perseguidor e curador/salvador/redentor.

O mito de Quiron mostra-nos que a ferida é um pré-requisito para uma cura maior. Assim, no Mito de Quíron, ele somente se liberta do sofrimento quando oferece a sua imortalidade a Prometeu (acorrentado por Zeus, como castigo de ter dado a chama divina ao Homem, a desrespeito aos Deuses) e é catasterizado na constelação de Sagitário.

O posicionamento de Quíron no Tema Natal mostra a área de vida em que a busca pelo alívio de qualquer sofrimento tem maior probabilidade de ocorrer de modo particularmente intenso. Com frequência, a casa na qual se encontra Quíron, representa uma área de vida que inicialmente é bloqueada, ou ferida, ou que não consegue ser vivenciada na sua plenitude. A dor e a frustração que experienciamos nessas áreas podem-nos impelir a iniciar uma jornada interna de cura. A memória de algum sentimento doloroso, depositada no inconsciente, tende a atrair situações no presente, que reproduzem os mesmos eventos, reativando consequentemente a antiga ferida e ao mesmo tempo a possibilidade de cura de ambas.

Quíron estimula este processo de iniciação e orienta-nos para um novo ciclo, um renascimento psicológico, ou independência filosófica. Abre a nossa consciência e incita-nos a transformar os nossos conceitos sobre a realidade intimando-nos a vivenciar intensas experiências transpessoais. Se não formos capazes de ceder e seguir docilmente, poderemos viver uma vida de lutas inúteis, como Quíron no mito, tentando continuamente nos curar das nossas feridas e podendo sucumbir a alguma doença grave ou à própria loucura. A chamada para nossa jornada interior pode dar-se através de alguma doença ou crise, encontros casuais ou outros fenómenos sincrónicos.

Quíron escolta-nos no nosso caminho, oferecendo-nos oportunidades para que possamos assimilar e processar tanto a experiência de nosso próprio sofrimento quanto a expansão da consciência.

(apontamentos da aula de Astrologia)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

confidência



Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No úmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se eu fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

quarta-feira, 7 de julho de 2010

um conto simples

Naquela altura devia ter uns seis ou sete anos. Era Verão. Foi o Verão mais quente que guardo na memória. O calor era a desculpa perfeita para todas as tardes sair de casa rumo à Praça do Rossio. Corria de braços abertos qual avião que ensaia os seus primeiros voos, assustando os pobres pombos que placidamente debicavam o milho e os pedaços de pão lançados pelos velhos que descansavam as suas vidas nos bancos de pedra.

Cansado e rouco costumava, depois, sentar-me na fonte a baloiçar os pés e a mergulhar os dedos das mãos dentro da água que por algum feitiço dos deuses estava sempre gelada. Como era bom! Assim como eram as conversas com a Sabedoria, com a Força, com a Justiça e com a Temperança. Não se espantem, não! As estátuas da fonte conversavam comigo ou melhor eu conversava com elas num entendimento subtil, simples e único. Atrás de mim esquecia regras austeras trabalho autoridade sacrifícios sonhos roubados... invisibilidade.

Falava enquanto passeava os olhos sobre as gentes que seguiam. Um homem que corria atrás do cão que escapava da trela um chapéu que voava da cabeça de uma criança que ria uma mulher que tropeçava nas pedras da calçada… coisas simples…

Foi num desses momentos de conversas soltas e olhares distraidos que a vi.

Andar encurvado saia comprida rosto escondido mão estendida. Mão estendida. Rosto escondido. Mão que se recolhia quando alguém tentava depositar nela algumas moedas. Rosto que se aproximava e pronunciava algumas palavras.

Espanto! Espanto era o que via refletido no rosto das pessoas. Depois depois rapidamente se afastavam como se fugissem de alguma coisa.

Não fui logo ter com ela. Não porque não morresse de curiosidade mas uma espécie de temor invadia-me.

Voltava todos os dias ao Rossio para a ver. Deixei de correr atrás dos pombos. Deixei de conversar com as estátuas. Ficava de longe a observar a minha mendiga. Como um filme que chega ao fim e voltamos a rebobinar.

Dia 15 de Julho (engraçado como passados tantos anos nos recordamos das datas precisas) não fiquei na fonte. Aproximei-me dela com umas moedas na mão. De rosto escondido por longos cabelos negros fez o gesto que eu conhecia de cor. Recolheu a mão. Aproximou o seu rosto do meu e murmurou “não quero dinheiro. só quero um olhar. só quero um pouco de ternura”

Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Olhei para ela. Não vi a pele enrrugada não vi as cicatrizes não vi o cabelo desalinhado. Vi somente os seus olhos. Quando ela olhou para mim o tempo deixou de existir. “há muito muito tempo Alguém olhou para mim e me deu muita muita ternura. procuro desde então novamente esse olhar. procuro desde então novamente um pouco de ternura”.

Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Olhei para ela. Não vi a pele enrrugada não vi as cicatrizes não vi o cabelo desalinhado. Vi somente os seus olhos quando ela olhou para mim. Um abismo de serenidade e sofrimento agitação e tranquilidade. Um abismo de calor. Intenso. Profundo

Não sei quanto tempo se passou não sei quanto tempo estive preso naquele olhar.

Quando me dei conta corria corria corria… fugia fugia fugia…

Nesse Verão nunca mais voltei à praça do Rossio. Nesse mesmo ano mudamos de casa mudamos de país. Mudamos de vida?

Cresci e esqueci a história da mendiga. Quer dizer de quando em vez voltava lá nos meus sonhos. Ao princípio continuava a fugir depois com o passar dos anos fui ficando… era como se o calor daqueles olhos fosse derretendo uma parte de mim feita de gelo.

O resto da minha vida não tem nada que contar. Fiz o que todos esperavam que fizesse. Fiz o que todos não esperavam que fizesse. Percorri muitos caminhos… conheci muitas pessoas…




Hoje novamente sozinho regresso à cidade natal. Passeio na praça do Rossio sento-me na fonte saúdo a Sabedoria a Justiça a Força a Temperança. Mergulho as mãos na água gelada. E procuro-a!

Caminho com passos lentos e olhar erguido em direcção ao terreiro do Paço. Espraio-me na contemplação do rio e sem pensar no que faço estendo a mão. Volto aquele dia. Volto ao abismo daquele olhar. E finalmente entendo.

Por isso se um dia passarem por Lisboa junto ao Rossio ou no terreiro do Paço e virem de mão estendida um homem de meia idade cabelos grisalhos olhar ora atento ora perdido por vezes rodeado de uma multidão de crianças por vezes completamente sozinho não se espantem não se assustem. Que sou eu. Que estendo a mão. Para oferecer a quem passa um pouco de ternura.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

camino


Bab'Azis: o príncipe que contemplava a sua alma


para todos os Caminhantes