domingo, 9 de maio de 2010


Deus disse a Moises:

-Descalça os teus sapatos, retira de ti o habitual que te envolve e reconhecerás que o lugar onde estás nesse momento é sagrado.

Porque não há lugar ou momento que não seja sagrado.

como nos tornamos fogo?


As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Como foi que me perdi do caminho escolhido, por ver em tua boca a promessa de algo mais?

Em que momento tua presença tornou-se mais importante do que qualquer coisa?

Em que encruzilhada do destino eu vi os teus cabelos ruivos?

Disseste ser salamandra, dona do Fogo e dos seus domínios. E amei-te mesmo assim. No meu estúdio alquímico, conjurava demônios, e atravessei os limites do Plano flamejante onde moravas.

De início, fez-me promessas e aumentou meu conhecimento. Eras espectro de chamas nas sombras do meu feitiço de invocação.

Encantaste-me. Com teus olhos de fogo, teus cabelos como o cobre, a voz que queimava minh’alma. Tua visão brilhava em meus sonhos, perseguia-me enquanto estava acordado. Sequer tentei resistir, forçar-me a desvanecer tua figura. Joguei meu espírito em tuas chamas.

Queria mais, desejava possuir teu corpo que não existia. Incorporal, etérea, eras Salamandra, rainha e espírito do Fogo.

Dediquei meus estudos, meu tempo, minha riqueza a meu único objetivo. Abraçar teu corpo e consumir meu desejo em tua carne quente. Deveria criá-la, fazer tua essência imaterial passar dos planos elementais e tornar-se matéria.

Dias, meses, anos. Consumi minha vida na vontade insana de saciar minha vontade de ti.

Não foi em vão.

Uma noite de chuva opressora, calor sufocante. Moldei as formas no barro, fiz os encantamentos devidos. Convoquei-te e fiz a proposta. Teu sorriso faiscou a tua resposta. Porém, antes de me deixar começar, fizeste uma advertência. Tua estada no meu plano seria curta. Em seis meses, deixarias de ser barro e tornarias ao fogo, que era tua casa.

Vivi esses dias imerso no queimar da matéria que fiz para ti. O desejo ardia nos dois, tornando-nos escravos e senhores um do outro.

Hoje, o prazo findou-se. Teu último beijo ainda estava quente nos meus lábios, meus braços guardavam a sensação do teu calor. Vi a frágil existência que eu criara sendo consumida pelas chamas que te reclamavam.

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Por que saí do caminho escolhido, ao ver em tua boca a promessa de algo mais?

Quando senti tua presença mais importante do que minha vida?

Em que encruzilhada do destino eu segui os teus cabelos ruivos?

No meio do meu estúdio, o fogo era glorioso. Tua face refletida nele. Dei os passos necessários, e novamente nos abraçamos.

Mas já não era a essência do fogo que se fazia carne. Era meu corpo que se entregava às chamas.

Foi assim que nos tornámos Fogo.

Ana Rodrigues

sábado, 8 de maio de 2010




Certas manhãs trazem uma luz diferente.

Um ar de primavera,
um pássaro que entrou
por uma fresta do telhado, e anda às
voltas na escada, uma voz que se ouve, num eco,
e não se sabe o que diz.

A manhã irá passar,
como todas as manhãs que nasceram,
trazendo uma luz diferente;
mas a primavera que ela anuncia colou-se ao rosto
com quem nós cruzamos;
o canto do pássaro meteu-se na cabeça,
como se ele voasse por dentro da memória;
e o eco que ouvi ganhou uma voz na tua boca,
quando te encontrei e me disseste que havia uma luz diferente,
nesta manhã em que tudo parecia igual.

Nuno Júdice

sexta-feira, 7 de maio de 2010

se procurar bem



Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Se nos encontrarmos outra vez no crepúsculo da memória,
conversaremos de novo
e cantareis para mim uma canção mais profunda.

E se nossas mãos se encontrarem noutro sonho,
construiremos mais uma torre no céu.

Khalil Gibran

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dante's Prayer



Though we share this humble path, alone / How fragile is the heart
Oh give these clay feet wings to fly / To touch the face of the stars

Cast your eyes on the ocean / Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless / Please remember me

domingo, 2 de maio de 2010

dá-me a tua mão



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector