sábado, 10 de abril de 2010

Cíclades



(evocando Fernando Pessoa)

A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse

Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
….
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência __
….
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso

Porém obstinada eu invoco -- ó dividido --
O instante que te unisse
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste

Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria

Aqui o enigma que me interroga desde sempre
É mais nu e veemente e por isso te invoco:
"Porque foram quebrados os teus gestos
Quem te cercou de muros e de abismos
Quem derramou no chão os teus segredos"

Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti

No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estação adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pr'a melhor ver
[ recua
E quiseste a distância que sofreste

Chamo por ti -- reúno os destroços as ruínas os pedaços --
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros

Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam o sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência

Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse

Sophia Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de abril de 2010


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 7 de abril de 2010

tatuagens



em cada gesto perdido /em cada ferida que sara
em cada grito da alma
eu sou igual a ti /tu és igual a mim


em cada ferida de alma /em cada grito perdido
em cada gesto que sara
eu sou igual a ti /tu és igual a mim

para onde estás a olhar

está a olhar para ti

segunda-feira, 5 de abril de 2010


No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.

Mia Couto

sábado, 3 de abril de 2010

um toque...



de magia

sexta-feira, 2 de abril de 2010

sem rede



Uma exposição! Onde o que parece ser não é ou por outras palavras o que é se transforma numa outra coisa totalmente nova e inesperada.

Os objectos quotidianos engenhosamente manipulados compõem uma nova forma que provoca em nós um sobressalto, um sorriso, um novo olhar. O título das obras recontextualiza os significados, questiona-nos, estimula o debate.

Este projecto da artista Joana Vasconcelos reune cerca de trinta e cinco obras dos últimos quinze anos. Encontramos aqui o seu olhar sobre a condiçao feminina nas obras A Noiva, Coração Independente, Cinderela … e tantas mais. Uma oportunidade para conhecer ou redescobrir o seu trabalho.

Imperdível!
Em Lisboa. Hoje cheia de sol.


Néctar
(garrafas de vidro)

Noiva
(tampões higiénicos)

Cinderela
(tachos e tampas)

Sofá Aspirina
(madeira e blister de aspirina)

Contaminação
(Croché, retalhos tecidos)