terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

poesia XXII

foto yuri bonder

Não me procures ali
onde os vivos visitam
os chamados mortos.
Procura-me dentro das grandes águas.
Nas praças,
num fogo coração,
entre cavalos, cães,
nos arrozais, no arroio,
ou junto aos pássaros
ou espelhada num outro alguém,
subindo um duro caminho.

Pedra, semente, sal passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

haiku - poesia japonesa

sobre o Haiku

A primeira antologia conhecida remonta ao ano 756 da era cristã. Nesta, a forma dominante é a do tanka. O tanka é um poema breve de cinco versos. Por volta do séc XV o tanka deu lugar ao haikai-hokku, poema de dezassete sílabas (5-7-5), resultante de um jogo de grupo em que os praticantes se iam respondendo uns aos outros e cuja temática decorre fudamentalmente da vida social.

Foi Bashô (1644-1694) que elevou o hokku à forma de haiku. Bashô filho de samurais, aos dezasseis anos, ferido pela morte de um grande amigo, retirou-se para um templo budista. Passa a viver de modo errante e a sua vida é feita de contemplação. Uma experiência tão radical só pode ser traduzida em linguagem próxima do silêncio - é a palavra em estado nascente. Daqui o sublime desta poesia.
Segundo Bashô um poema deve revelar num mesmo movimento o imutável, o infinito, a eternidade que nos escapa e o efémero da matéria de que tudo é feito.. Esta poesia é ainda um sopro da alma que se compraz na harmonia do pensar e do ser.
O haiku é o testemunho de um drama intímo do ser que se revela na palavra. Na sua brevidade sugere mais que afirma, na sua leveza inscreve mais do que escreve.
Haiku, palavra viva situada no interior da própria vida. O sublime pode ser alcançado a todo o momento e em todos os lugares. Por isso, esta poesia é também uma forma de felicidade, do encontro. Feliz é quem pode experimentar nos momentos mais banais da existência e nos seres a presença do infinito. E vivê-lo é mais do que entendê-lo.

(fonte:haiku uma antologia de Manuel Silva Terra)


Este dia tão longo -
demasiado breve ainda
para o canto da cotovia!

Matsuo Bashô

Ao matar uma mosca
feri
uma flor

Kobayashi Issa

domingo, 7 de fevereiro de 2010

o louco



Me perguntas como me tornei um louco. Foi assim: Um dia, muito
tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um
sono profundo e notei que todas as minhas máscaras haviam sido
roubadas . As sete máscaras que eu havia confeccionado e usado
em sete vidas.

Corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando: ’Ladrões,
ladrões. Malditos ladrões!’

Homens e mulheres riam de mim e alguns corriam com medo para
suas casas. Quando cheguei à praça do mercado, um menino
trepado no telhado de uma casa gritou: ’Você é um louco!’

Olhei para cima para vê-lo. O sol brilhou pela primeira vez em meu
rosto descoberto.

Pela primeira vez o sol beijava meu rosto nu, e minha alma se
encheu de amor pelo sol, e nunca mais desejei usar máscaras.
Assim me tornei um louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha própria loucura.
A liberdade da solitude e a segurança de não ser compreendido.
Pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Gibran Khalil Gibran

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

para Arami


;)

o que fazer


quando se tem dois meses de baixa?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

para kend-ito

nos sanamos
cada vez que podemos ver
em cada dia que nasce
a possibilidade de ser
um dia perfeito

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

os quatro búzios




Saltitava descalça pela areia. Dava pequenos gritinhos quando a água salgada molhava a bolha enorme que tinha no dedo grande do pé. Ui, ui como ardia! Mas ela sabia que se desse um grito doía menos. Não percebia porque os adultos não gritam quando têm uma dor.

O dia tinha acabado de nascer. No céu uns fiapos brancos. O vento tinha levado as nuvens escuras e a chuva da noite passada. As ondas brincavam com a areia e salpicavam o seu rosto, os seus cabelos. E ela ria, ria.

Foi nesse instante preciso, naquele momento preciso que os seus olhos se fixaram na areia e os viram. Eram quatro! Quatro búzios desenterrados pelas ondas. E nesse preciso instante lembrou-se. Lembrou-se deles. Dos seus quatro amigos que se mascaravam de adultos e bricavam lá longe num país distante.

Sentou-se e cuidadosamente pegou em cada um deles. Levou cada um ao ouvido. E escutou. Escutou o som do mar. Um sorriso travesso pousou nos seus lábios. Todos tinham um som diferente.

Ouviu o som do mar ao nascer do sol. O som que o mar tem quando se sente aquecido, a espreguiçar-se, a sorrir ainda desacordado. Um som suave do mar. E pensou, este sei quem é.

Outro búzio outro tom. O som do mar a meio da manhã. Completamente acordado. As ondas a desafiarem a areia, a descobrirem conchas e búzios e conquilhas. A rebentação das ondas. O som de risos. O mar também sabe rir. E pensou, este sei quem é.

E este? O som do mar à noite revolto. Ondas que tentam vencer os recifes. Uma e outra vez e outra vez. O som das tempestades. E o som que fica depois. E pensou, este sei quem é.

Encostou o último búzio ao ouvido. E escutou o som das marés. Praia mar baixa mar. A lua a chamar as marés. Marés vivas marés calmas. Marés conhecidas marés por descobrir. E pensou, este sei quem é.

As suas mãos pequeninas uniram-se em concha e trouxeram os búzios para casa. Guardou-os no fundo da mala para quando regressasse. Não sabia como mas um dia seriam deles.

E veio ao pé coxinho ter comigo. A bolha do dedo grande do pé estava a crescer, cada vez maior, enorme…