quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Canções que se ouvem, rápidas a passarem. Rimas feitas e desfeitas, o que não sai da pele, o que fica no céu azul, o que cola à pele, o que fica gravado como um sinal de quem se encontra no meio dos sonhos.

Às vezes espera-se a madrugada, que a noite passe; de outras espera-se o fim dos caminhos, à espera da noite. É tão de repente que se vêem as coisas perfeitas.

Francisco José Viegas in “A Noite o Que É?”



Mértola 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Um motorista somaliano faz anos e cumpre o seu circuito habitual sem suspeitar que a carris lá do sítio lhe prepara uma surpresa com a cumplicidade dos passageiros habituais, que manifestam assim a estima que lhe têm.
Passa-se na Dinamarca e este é também o nosso mundo….


terça-feira, 9 de agosto de 2011

ó noite


imagem de CelineM

Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser?

Sophia Mello Breyner

domingo, 7 de agosto de 2011


levada das 25 fontes, Madeira

Ela queria construir a estrela da sua integridade sobre
o dorso do tempo. Repousava na embriaguez da sua
espera, respirava o frémito de um silêncio amoroso.
No limiar da dança, comtemplava os minúsculos
astros da sua morada nua. Caminhava abraçando o
espaço e modelando no ar a sua identidade de água
errante. Ela construía o reconhecimento de uma
aparição que fosse a evidência do seu olhar aberto e
livre.

António Ramos Rosa in “o que não pode ser dito”

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

eu pescador


Tamandaré

Eu pescador que pesco por um instinto antigo
e procuro não sei se o peixe se o desconhecido
e lanço e recolho a linha e tantas vezes digo
sem o saber o nome proibido.

Eu que de cana em punho escrevo o inesperado
e leio na corrente o poema de Heraclito
ou talvez o segredo irrevelado
que nunca em nenhum livro será escrito.

Eu pescador que tantas vezes faço
a mim mesmo a pergunta de Elsenor
e quais águas que passam sei que passo
sem saber a resposta. Eu pescador.

Ou pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último do planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Eu pescador que trago em mim as tábuas
da lua e das marés e o último rumor
de um nome que alguém escreve sobre as águas
e nunca se repete. Eu pescador.

Manuel Alegre, Oitavo Poema do Pescador in "Senhora das Tempestades"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria