domingo, 7 de agosto de 2011


levada das 25 fontes, Madeira

Ela queria construir a estrela da sua integridade sobre
o dorso do tempo. Repousava na embriaguez da sua
espera, respirava o frémito de um silêncio amoroso.
No limiar da dança, comtemplava os minúsculos
astros da sua morada nua. Caminhava abraçando o
espaço e modelando no ar a sua identidade de água
errante. Ela construía o reconhecimento de uma
aparição que fosse a evidência do seu olhar aberto e
livre.

António Ramos Rosa in “o que não pode ser dito”

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

eu pescador


Tamandaré

Eu pescador que pesco por um instinto antigo
e procuro não sei se o peixe se o desconhecido
e lanço e recolho a linha e tantas vezes digo
sem o saber o nome proibido.

Eu que de cana em punho escrevo o inesperado
e leio na corrente o poema de Heraclito
ou talvez o segredo irrevelado
que nunca em nenhum livro será escrito.

Eu pescador que tantas vezes faço
a mim mesmo a pergunta de Elsenor
e quais águas que passam sei que passo
sem saber a resposta. Eu pescador.

Ou pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último do planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Eu pescador que trago em mim as tábuas
da lua e das marés e o último rumor
de um nome que alguém escreve sobre as águas
e nunca se repete. Eu pescador.

Manuel Alegre, Oitavo Poema do Pescador in "Senhora das Tempestades"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria

sexta-feira, 22 de julho de 2011

a Roda da Fortuna

Um fim de tarde. Uma sala semeada de almofadas de mil cores. Lá fora o vento assobia canções de que ninguém sabe a letra…

Sentados no chão de pernas cruzadas, atento é o olhar e a cabeça inclina-se para melhor ouvir a narração dos segredos. Deixamo-nos ir, embalados pelas palavras da Juliana, a terra gira e por um momento, um instante o vento acalma o seu murmúrio e entramos num tempo bem guardado no fundo de nós.

Esta foi a aula última antes das férias. A Roda da Fortuna.

Cada um de nós sabe institivamente que existe um “pote de ouro” no fim do seu próprio arco-iris. Para alcancá-lo estamos dispostos a atravessar as tempestades da vida, rumo à terra prometida. Às vezes perdemos a direcção, erramos o caminho mas num nível mais profundo está preservada a essência pura do ideal. O caminho para a Alegria. Todos somos iguais. Todos somos diferentes. E por isso os ideais são numerosos e diferentes. E por isso todos possuem o espaço e as escolhas, que à sua maneira única, conduzem a esse caminho. Ao sincero desejo da Alma. A harmonia interna permite-nos conhecer as metas e ideais que nos trarão felicidade – o “pote de ouro”.

Na linguagem astrológica, esse pote de ouro é conhecido como a Roda da Fortuna. É através da expressão desse ponto que nos sentimos mais à vontade e percebemos o nosso próprio lugar na vida. A Roda da Fortuna é também o ponto através do qual nos sentimos enraizados no centro de nosso próprio ser.

Há um lugar no mapa de cada um onde não existe fragmentação, onde a integração é total. Onde a natureza Solar, Lunar e do Ascendente estão em perfeita harmonia.


A Roda, Lote ou Parte da Fortuna na astrologia clássica descreve a forma básica na qual o indivíduo é fisicamente conectado com o mundo circundante. Ptolomeu descreveu o seu cálculo: Asc+Lua-Sol (para os nascidos de dia) e Asc+Sol-Lua (para os nascidos de noite).

Roda da Fortuna. A integração do que sou, do que sinto do que expresso. Em perfeita harmonia. Os ideais. O caminho.

Olho para o meu mapa. Tenho a parte da Fortuna a 4º de Peixes na 4ª casa. E sem saber porquê sinto que o meu tempo é estar aqui - água e asa.

sem palavras

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista.
Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar.

Vergílio Ferreira, in "Pensar"