domingo, 12 de dezembro de 2010

douce nuit


Crescente era o quarto da lua.


A noite tomava de emprestado o vermelho dos candeeiros seculares dispostos em redor da árvore imensa no centro da praça. No cimo dos edifícios, os sinos enfeitiçados pelo canto do vento, entoavam uma melodia muito antiga. Muito bela.


A mulher e a menina impregnadas de espanto olhavam.
Olhavam a árvore, os candeeiros, o vento, os sinos, a praça.


É mágico, mãe. Olha, consegues ver? – perguntou a menina apontando o dedo para o céu.


No ar flutuavam milhares de seres alados vindos do fim dos tempos, que lhes sussurrravam ladainhas ternas ao ouvido e fechavam as asas como quem se abraça devagar. Pareciam flocos de neve…


Podemos ficar assim para sempre? Podemos?


A mulher deslizou os dedos longos e macios pelo seu cabelo, acariciando-a e perguntou:
- É isso mesmo que tu queres pequenina?
- É! – respondeu sem pestanejar.


A mulher sorrindo pegou na mão da menina e começaram a subir a subir sentindo em cada asa o impulso imenso de um regresso a casa.





esta é uma história para recordar à lareira, com a Catarina, embrulhadas em mantas de lã e de ternura

sábado, 11 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

a lua




A essência dos significados da Lua surgiu devido à sua natureza mutável e nocturna. Em primeiro lugar, a lua muda constantemente de fase, perfazendo o seu ciclo em 28 dias.

A sua mutabilidade é devida à sua posição em relação ao Sol. Quando está conjunta a ele, desaparece, pois o brilho solar ofusca a Lua, e neste período ela parece ser “fecundada” pelo Sol. Na próxima fase, distancia-se do sol e começa a crescer (gravidez), quando entra na fase do oposição fica totalmente cheia, e “dá a luz”, iluminando a noite escura e por fim minguando, volta a aproximar-se do sol, que a ofusca novamente, até desaparecer e reiniciar o ciclo.

Este é o princípio Lunar, que deu origem aos maiores significados da Lua: é o arquétipo da grande mãe, é o feminino, a gravidez, as emoções, os sentimentos, os afectos, o cuidado, a protecção, a nutrição, a alimentação.

A mutabilidade da Lua representa a mutabilidade dos sentimentos e afectos humanos e também a instabilidade.

Outros significados da Lua advêm da sua natureza nocturna.
A noite, nos primórdios da humanidade, era sinónimo de perigo, medo, desconhecido. Como os homens estavam muito expostos ao ataque de animais, saqueamento de suas reservas por inimigos, etc., a noite e a escuridão tornaram-se o principal arquétipo de medo no inconsciente colectivo do homem. Outras qualidades dadas deste arquétipo à lua são de imaginativa, impressionável e influenciável. E também fantasia, criatividade, sonho.

A lua condiciona uma série de eventos na terra, graças à sua influência gravitacional, afectando as marés, o crescimento da vegetação e todos os ciclos naturais.

Sendo assim, podemos perceber que a Lua é um condicionador importante para o homem, e toda a experiência associada a outros factores planetários também será profundamente influenciada pela Lua, isto é pela nossa percepção emocional, pelos nossos condicionamentos inconscientes e pelos nossos mecanismos de defesa.

A lua astrológica também representa nossos medos e a nossa defesa emocional inconsciente e imediata frente aos estímulos ameaçadores. A lua é nossa identidade emocional, a forma habitual de reacção, os padrões instintivos de comportamento e os condicionamentos aprendidos na infância.
Também rege as experiências passadas, a memória emocional, o passado, a tradição.

Enquanto o Sol representa nosso Self consciente (luz do dia), a Lua representa o Ego inconsciente e o comportamento emocional adquirido inconscientemente (escuridão da noite).
Enquanto o Sol representa a parte masculina da psique humana a Lua representa a sua componente feminina “Anima”, daí seus significados de figura materna, mulher, nutrição, casa, protecção.

O Glifo

O glifo da Lua simboliza o meio círculo, e portanto uma fracção do todo, algo que falta para chegar ao todo, um vazio.
Este vazio é também um importante significado da lua, aquilo que falta para a plenitude, as carências, o que precisa de alimento ou nutrição para “encher”, ou completar.
O símbolo do meio círculo também simboliza a “alma”, o sentir ou o intuir. Este símbolo também encerra em si a noção de passividade - receptividade.

No mapa natal a lua é interpretada no signo e na casa em que está e nos aspectos que faz aos outros planetas.

A Lua rege o signo de Caranguejo e a casa IV, e está exaltada em Touro.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Florbela Espanca



Florbela da Conceição Espanca (1894 - 1930) nasceu e voluntariamente morreu em 8 de Dezembro, dia dedicado a N.Srª da Conceição, sua patrona.

domingo, 5 de dezembro de 2010

sete graus abaixo de zero


tombe la neige

(ontem em Bruxelas)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



”... estar ao mesmo tempo sonhando um poente real sobre o Tejo real e uma manhã sonhada sobre um Pacífico interior; e as duas coisas sonhadas intercalam-se uma na outra, sem se misturar, sem propriamente confundir mais do que o estado emotivo diverso que cada um provoca, e sou como alguém que visse passar na rua muita gente e simultaneamente sentisse de dentro as almas de todos...”.

Bernardo Soares (Livro do Desassossego)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

que intervalo é este entre mim e mim?

.

Uma noite, um filme, o filme do desassossego, uma adaptação de “O Livro do Desassossego” escrito por Bernardo Soares ,semi-heterónimo de Fernando Pessoa.

O filme aparentemente impossível de realizar, pensamentos fragmentados do desassossego de Bernardo Soares, realizado de forma magnífica por João Botelho.


Gostei muito. E desassossegou-me….


A noite choveu. O que me faz diferente esta noite? Que desassossego passeio nesta noite de nevoeiro molhado que sulca na face uma lágrima, mistura de doce e salgado?

Fragmentos de pensamentos. Da noite.


que intervalo é este entre mim e mim?


as emoções, o corpo, as sensações, a vigília, os sonhos, os desejos os sentidos quando acordo de madrugada a esperança de algo antigo e tão frágil


que intervalo é este entre mim e mim?


um tempo imperfeito, abstrações, inquietações
não sei o que é. sei que está no meu peito
peregrina sigo devagar entre mim e mim


que intervalo é este?


de olhos fechados o frio perdido dentro de mim.
meço o tempo que chega de longe no meu rosto
abandono as palavras dentro da noite


que intervalo é este entre mim e mim?


é a calma na tempestade, as folhas que chovem do vento
as raízes desnudadas da árvore
o abandono sem medo a todos os caminhos
, um dia, entre mim e mim, um passo sem intervalos


Um filme. Uma noite. Um desassossego.